O fato mais importante da semana passada se deu na sexta-feira, em Porto Alegre. Seu protagonista é Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência e olhos, ouvidos e mão — pesada! — de Luiz Inácio Lula da Silva no governo. Carvalho é o homem que guarda os arcanos petistas, os seus segredos, os seus porões. Depois do Babalorixá de Banânia, é quem mais conhece o partido. Transita em todas as esferas, especialmente no mundo sindical — e o sindicalismo nunca foi para pessoas de estômago fraco. O de Carvalho é de avestruz. Não por acaso, ele foi o principal articulador do PT nos eventos pós-morte de Celso Daniel. Foi quem organizou a reação do partido e determinou o papel que cada um deveria desempenhar. Tinha sido braço-direito do prefeito. Segundo irmãos de Celso, confessou-lhes que levava malas de dinheiro do esquema de corrupção de Santo André para o PT — no caso, para José Dirceu. Ambos negam, é evidente. Mas volto.
O evento mais importante foi a palestra de Carvalho a militantes de esquerda no Fórum Social de Porto Alegre. É aquele evento que contou, na sua fase palaciana, com a presença do terrorista e assassino Cesare Battiti, a quem os petistas deram guarida. Para Carvalho, no entanto, “terrorista” é a polícia de São Paulo… Esse foi o trecho politicamente mais delinqüente de sua fala, mas não foi o principal.
Depois de confessar que o governo quer criar uma mídia estatal para a chamada “classe C” — que, seguindo Carvalho, não poderia ficar à mercê da mídia conservadora —, ele avançou: é preciso fazer uma disputa ideológica com os líderes evangélicos pelos setores emergentes!
Uau! Não pensem que isso é feito assim, na louca, sem teoria — nem que seja uma teoria aprendida, não exatamente lida. Esse pensamento de Carvalho tem história.
Os petistas, embora não o digam em público, consideram que a oposição está liquidada. Conversei dia desses com um intelectual petista que se mostrava, até ele, escandalizado com a incapacidade da oposição de articular o discurso conservador para se opor ao suposto “progressismo” do PT. Ele também estranhava o que vivo estranhando aqui: será o Brasil a única democracia do mundo com medo dos eleitores que estão mais à direita no espectro político? Pelo visto, sim! Lá na suas tertúlias, os petistas chegam a zombar dessa covardia.
Notem, a propósito, que os únicos momentos em que demonstram realmente alguma aflição e põem as suas hordas na rua é quando temem que a população adira ao discurso da ordem: então mobilizam seus bate-paus para confrontos com a polícia. Assim, podem sair gritando: “Fascistas!” Se e quando a oposição souber falar essa linguagem de modo eficiente e moderno, o PT pode ter problemas. Mas a aposta dos companheiros é que isso não vai acontecer. Tucanos, por exemplo, são reféns de sua “ilustração”.
A outra força
A força que o partido teme é justamente a religiosa. E, no caso, não é a Igreja Católica que os preocupa. Embora tenha cooptado o PRB — o partido da Igreja Universal do Reino de Deus, do auto-intitulado “bispo” Edir Macedo, dono da Record —, o PT sabe tratar-se de uma vistosa, mas pequena parte dos evangélicos. Seguindo os passos da teoria gramsciana, o “partido” tem de se consolidar como um “imperativo categórico”, de modo que toda ação concorra para fortalecê-lo. Mesmo os movimentos de crítica e reação hão de estar subordinados a este ente. Haver organismos, entidades, grupos ou religiões que cultivem valores fora do abrigo do partido é inaceitável.
Os “pensadores” do PT querem começar a criar as condições para limitar ou anular a influência das igrejas evangélicas especialmente nas questões relativas a costumes. O projeto petista se consolida é com a completa laicização da sociedade, sem espaço para a moral privada ou de grupo. Teses como descriminação do aborto, legalização das drogas, união civil de homossexuais, proselitismo sexual nas escolas (nego-me a chamar de “educação” o tal kit gay, por exemplo) tendem a encontrar resistência. E as vozes que lideram essa resistência costumam ser justamente as dos evangélicos. Setores da Igreja Católica também reagem, sim, mas sabemos que a Santa Madre está infestada de esquerdistas de batina (ou melhor: sem batina!).
Ora, conjuguemos as duas propostas de Carvalho, feitas no Fórum Social: ele quer o estado produzindo “informação” para a classe C justamente para disputar almas com os evangélicos. O PT chegou à fase em que acredita que pode também ser “igreja” — e seu “deus”, como se sabe, é o Apedeuta… Os petistas ainda não engoliram o recuo que tiveram de fazer em 2010, no debate sobre o aborto, por causa da pressão dos cristãos.
Os cristãos evangélicos entraram no alvo de médio prazo do PT. Cuidem-se ou serão também engolidos.
Comento
Não haverá muita resistência, em matéria de política somos adesistas. Aqui em Pernambuco, por exemplo, temos um deputado federal socialista. Socialismo + Evangélico = samba do crioulo doido. O PT já cooptou o que Reinaldo chamou de a outra força. Ouço rumores de prefeituras do PT e cia em cujas folhas brilham pastores e lideranças assembleianas em cargos comissionados. Em outras a coisa não é tão explícita, mas o que dinheiro não faz... Fatura liquidada.
3 comentários:
Daladier,
A paz do Senhor.
Como pastor, membro do Partido dos Trabalhadores, e esquerdista mais como fruto da fé evangélica que professo do que da semeadura secular, penso que existe uma série de pontos nessa discussão restrita que sequer passam pela discussão com todo o segmento evangélico. O governo do PT trabalha com conferências temáticas que tanto eu qquanto minha esposa trabalhamos para terem a adesão dos evangélicos. Conferências do estado diferem das conferências evangélicas. As do estado são para delegados populares. As evangélicas são para líderes. Você com razão fala de resistência religiosa a certos temas. Se observar bem os que se insurgem, de origem católica são teólogos e fiéis leigos. Nós praticamente nos fixamos na monocultura do Malafaia. Curiosamente quando foi feita a manifestação diante do Congresso ano passado, eu fui para o meio da massa e perguntei quem sabia exatamente de que se estava tratando. A maioria falou de Lei da Mordaça contra os crentes. O PLC 122 só tratou disto até 2009. Em suma, ninguém sabia por que estava ali. As conferências tanto as distritais quanto as nacionais que ocorrem em Brasília, não conta com evangélicos. Sou assessor do Secretário de Cultura e, nessa condição fui designado para presidir reuniões preparatórias por área de linguagem. Dirigi as de Cultura Negra e de Cultura Evangélica (por mais que pintem o PT de inimigo da fé, a idéia não foi dos evangélicos). Deveria haver duas de cada. Houve 7 reuniões de Cultura Negra e a única de Cultura Evangélica contou só com a minha família. Penso que, em relação à relação (desculpe a redundância) fé-política (mesmo a política de esquerda - por que não?) Nós líderes precisamos ser menos pastores e mais rabinos. A questão deve ser menos de igreja e mais de sinagoga, menos de ensino e mais de discussão dialética. O povo evangélico precisa ser menos seguidor e mais crítico. No caminho, o PT e qualquer outro segmento de esquerda deve ser visto como os gregos de Atenas, por Paulo. Vamos discordar, nosso Deus é o desconhecido, mas vamos subir sentar com o areopagita e parlamentar com o diferente e, quem sabe, ganhá-lo.
Quando lembramos do esquema aristotélico, segundo o qual os governos podem ser MONARQUIA - bom governo de um, TIRANIA - mau governo de um, ARISTOCRACIA - bom governo de poucos, OLIGARQUIA - mau governo de poucos, POLITIA - bom governo de muitos e DEMOCRACIA - mau governo de poucos, considerando primeiro o fato de o avanço do tempo inverteu o sentido de DEMOCRACIA e esqueceU a POLITIA, é verdade que doutrinamos o nosso rebanho a não estar no governo de muitos. Ou estamos no governo de um (e hoje não faltam os monarcas ou tiranos que se impoem ao povo de Deus) ou estamos no governo de poucos em que uma classe ou um grupo dominante se impõe ao povo de Deus. Uma confraria de irmãos da base, como parecia ser a Igreja Primitiva é de difícil percepção. Mas é o que gostaria de ver nas nossas conferências. No Distrito Federal a minha esposa foi muito aclamada por ter feito uma conferência livre de mulheres religiosas (havia duas pastoras e duas yalorixás, sendo as demais leigas). A Secretária de Mulher deu todo apoio e incorporou a iniciativa à Conferência de Mulheres do DF. Aí eu pergunto. Então por que passou o aborto na Conferência de Mulheres do DF e depois na Conferência Nacional de Mulheres. Não foi, porque o PT quis, foi porque o povo de Deus não foi é. E tinha que ser o povo e não alguns malafaias. A coisa se resolveu no voto. E perdemos porque as mulheres evangélicas não estavam lá, já que somos ou MONARQUISTAS (pastores do tipo oráculo único) ou ARISTOCRÁTICOS (família ou grupos influentes) no nosso formato. Daqui para frente creio que precisamos horizontalizar e repartir decisões com o povo e de Deus e fazer uma oposição - quando couber oposição, por que não creio em oposição-por- oposição - do tipo PARTICIPATIVA. A REPRESENTATIVA não cabe mais na nossa vontade ver o reino de Deus avançando e mostra que certos tombos que tomamos são muito mais da Aritmética da espiritualidade ou da moral das coisas.
Paz do Senhor Ev. Daladier e diletos internautas.
WILSON BARBOZA
Corrigindo ao final do comentário anterior: Daqui para frente creio que precisamos horizontalizar e repartir decisões com o povo e de Deus e fazer uma oposição - quando couber oposição, por que não creio em oposição-por- oposição - do tipo PARTICIPATIVA. A REPRESENTATIVA não cabe mais na nossa vontade ver o reino de Deus avançando e mostra que certos tombos que tomamos são muito mais da Aritmética DO QUE da espiritualidade ou da moral das
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