segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Convém a um evangélico ser esquerdista?


Antes de prosseguir vamos à origem dos termos direita e esquerda na política. A história nos ensina que os termos nasceram na Revolução Francesa, no final do século XVIII. Haviam dois grandes grupos no plenário parlamentar daquele país. À direita ficavam os defensores da burguesia e do status quo, à esquerda os defensores do povo e das conquistas sociais. No centro ficavam aqueles que não tinha posição política definida, defendendo este ou aquele posicionamento ao sabor da conveniência. A esquerda defendia o progresso das conquistas, o tabelamento de preços, a abolição da escravidão nas colônias francesas e a admissão do cidadão às decisões em todas suas instâncias.

Os sistemas políticos mundiais herdaram a nomenclatura, mas no caso do Brasil há diferenças gritantes. A esquerda brasileira é notadamente burocrática, oriunda em sua maioria de sindicatos e do funcionalismo público. Nestes termos defendem rigidamente todas as conquistas salariais e pecuniárias dos grupos que representam. O povo que lhes paga é, não raro, alvo de mal humor e desdém nos guichês de atendimento de repartições públicas. Uma das bandeiras caras aos esquerdismo brasileiro: a estabilidade funcional, é utilizada em muitos casos para a malemolência e falta de produtividade.

Quando o golpe de 1964 estabeleceu o governo militar os partidos de esquerda foram postos na clandestinidade, seus líderes foram presos ou exilados. Os que resistiram foram mortos. Porém, a maioria mortos em combate. Diversos, porém, poucos em relação à quantidade de envolvidos morreram na tortura. Frise-se que não era democracia o que queriam os grupos radicais que lutaram contra os militares, mas uma versão tupiniquim do comunismo soviético. Portanto, nada daquilo era bom para o povo, como podemos ver ainda hoje em Cuba ou China. Repressão ao livre direito de ir e vir, existência de um partido único, não teríamos, por óbvio, oposição, e ausência de iniciativa privada.

Após a redemocratização nos anos 80 e a posterior ocorrência de eleições diretas os partidos ressurgiram, se fundiram, novos foram criados. Em 2002 o poder passou a um daqueles que era tido como um partido de esquerda, o PT. Aliás, até hoje permanece tal ideário. As sucessivas denúncias de corrupção, penalizando, portanto, o trabalhador, o assalariado, os mais pobres, fizeram cair a máscara da esquerda brasileira. Os líderes se locupletaram e enriqueceram, muitos são milionários. O partido que se dizia dos trabalhadores passou a aceitar patrões em seus quadros e fazer conchavos com eles.

Outros partidos ditos de esquerda seguiram o mesmo caminho, embora sem eleger um representante presidencial, é o caso do PSB, do PV, do PDT, do PSOL.

Mas a pergunta chave aqui é um crente salvo pode ser esquerdista? Relembremos algumas premissas caras aos partidos de esquerda, em sua maioria:

  1. Controle do Estado - Todas as atividades seriam impulsionadas pelo Estado, mesmo naquilo que não é atribuição direta. O problema é que o Estado gere mal e tende a politizar as indicações. Além de desviar dinheiro do Tesouro para empresas públicas mal geridas;
  2. Repúdio ao capitalismo - A iniciativa privada é menosprezada, os EUA, que representam o consumismo por excelência, devem ser criticados nos estertores. É o grande Satã. Porém, 10 em cada 10 esquerdistas adoram o Big Mac e gostariam de passar férias na DisneyWorld, além de consumir todos os gadgets (quinquilharias tecnológicas) produzidos ou inventados naquele País;
  3. Democratização da mídia - Entenda-se como um ataque a todos os veículos de comunicação que representariam a manipulação da opinião pública. O Estado se encarregaria de produzir conteúdo e decidir o que os cidadãos assistiriam. A grande questão aqui é a crítica livre. O Estado aparelhado pela esquerda entende que a grande mídia só deve exaltar os pontos positivos da administração pública;
  4. Aumento da burocracia - Inchaço da folha de pagamento estatal, contratação crescente de funcionários públicos. A esquerda entende que a privatização dos serviços públicos é que gera a má qualidade da prestação dos mesmos. Porém, nenhum teórico de esquerda sério é capaz de explicar como sendo o Estado um mero arrecadador dará conta indefinidamente do funcionamento da máquina;
  5. Financiamento do transporte público pelo Estado - Todas as empresas de ônibus seriam estatizadas. Este foi um tema caro nos últimos protestos. Ninguém se ateve à conta que governos municipais e estaduais terão que pagar para que o transporte coletivo seja gratuito. Sem falar naqueles que podem pagar;
  6. Reforma política - Extinção do financiamento privado de campanhas e partidos. O Estado financiaria dando proporcionalidade ao tamanho das bancadas. É desnecessário analisar quais partidos seriam beneficiados com os recursos;
  7. Relaxamento moral - Um dos conceitos utilizados à exaustão é a repressão religiosa fomentada pelas igrejas. Como a esquerda tende ao ateísmo vê o relaxamento dos costumes como favorável ao seu propósito de desmerecer as igrejas;
  8. Combate à homofobia e ao racismo - Segundo os teóricos de esquerda temos mortes por racismo e homofobia no Brasil de maneira sistemática e assustadora. As estatísticas tem se mostrado fraudulentas e a violência é endêmica;
  9. Direito ao aborto - O mantra das esquerdas é que o feto não faz parte do corpo da mulher, embora dela dependa. Portanto, a mulher decide o que fazer com seu corpo. Entretanto, todos que defendem o aborto nasceram e estão vivos;
  10. Desmilitarização das polícias - Elas seriam meros fiscais do crime não podendo agir de forma ostensiva, mesmo quando atacados. Sem a reserva técnica de segurança como estaria o País?
  11. Controle da religião - Assim como ocorre em Cuba e na China o partido não pode dividir influência com outra entidade, sob pena de subverter as massas e dar margem a questionamentos.


Não gostaria de produzir uma resposta. Ainda que a esquerda esteja desfigurada no Brasil, todos os dias vemos e lemos este questionamento na grande mídia e até muitos partidos mais conhecidos mantêm em seus programas, estatutos e atas alguns ou todos temas acima. Agora mesmo a eleição tem sido pautada por alguns desses temas e se exige dos candidatos um posicionamento a respeito deles.

Gostaria que meus dez leitores pudessem expressar se a um crente salvo em Cristo convém ser esquerdista, à luz do que temos até aqui.

3 comentários:

Mario Sérgio de Santana disse...

Caro Daladier,

Realmente não é uma resposta fácil. Contudo acredito que podemos explorar boas coisas nas posições da chamada esquerda. Caso se fizesse um texto apontando os problemas do capitalismo, ou do liberalismo econômico, as coisas também não seriam muito animadoras. Acúmulo de riqueza, exploração dos trabalhadores e miséria também são vistos nos países do "livre mercado". Mas acredito que muitas ideias, projetos e utopias da esquerda podem e devem ser defendidos. Claro, nem tudo pode ser absorvido, principalmente o que fere os valores cristãos. Porém, algumas coisas nesse nosso país são muito evidentes. Um exemplo é a grande mídia e sua manipulação grosseira das informações. E digo mais: alguns países citados como exemplo de democracia (EUA ou Inglaterra) possuem leis muito mais rigorosas no controle da mídia. Esse é só uma caso que devem nos fazer refletir. Espero em outro momento contribuir para o debate.

carloshenrique disse...

Bom, Daladier, sinceramente, olhando todos esses pontos só posso dizer uma coisa:
Todos esses pontos defendidos pela esquerda são totalmente repugnantes. E, ainda mais repugnantes é a defesa do aborto e a defesa do homossexualismo como se fosse algo normal pela esquerda. A esquerda, com todas as propostas, só visa a destruir a família brasileira.
E, quanto a financiamento de campanha por parte do Estado é totalmente inaceitável, pois aí os únicos partidos, que no fim das contas seriam financiados seriam o do Presidente e os que estivessem em conluio com o Presidente, e qualquer partido político que fosse de oposição ou defendesse valores contrários ao do governo que estivesse no Poder, certamente perderiam qualquer tipo de financiamento. Ficaria bem fácil assim eliminar qualquer tipo de oposição e a ditadura estaria totalmente instituída no Brasil.
Portanto, nenhum Cristão pode ser esquerdista. Ser Cristão e ser esquerdista ao mesmo tempo diante do exposto é uma total completa contradição.
Atenciosamente, Carlos Henrique Xavier.

Duo disse...

Tenho tendências a esquerda, mas não a essa esquerda brasileira fragmentada. Sou cristão, membro da igreja Batista, professor de História e Sociologia. Hoje não consigo ver a sociedade de outra forma a não ser uma sociedade dividida entre ricos e pobres.

Talvez pela influência da sociologia na minha formação acadêmica. Ouço muitas críticas ao marxismo, como sendo o próprio demônio. Devemos ter a cautela de Marx não se preocupou com a metafísica, seu estudo ocorreu sobre a situação política do século XIX, onde a burguesia se perpetua como uma classe opressora.

Não estudo Marx como estudo a Bíblia, Marx escreveu contra o seu tempo a favor do nosso tempo.

Quanto as reivindicações da esquerda, acho plausíveis, tendo em vista que vivemos em um estado laico e pluralista, não se deve impor nossas crenças e valores para a sociedade.