domingo, 4 de novembro de 2012

Rescaldo político, igreja gandula e outros

Passadas as eleições gostaria de fazer algumas colocações para nossa reflexão. Refletir é um antídoto contra os erros do passado e o combustível do blog. Me aterei aos vários links que dizem respeito à Igreja do Senhor Jesus. Difícil escolher por onde começar. Vamos por São Paulo. A mesma imprensa que nos acha chique, tentou interditar o debate naquilo que nos interessa.Aborto? Retrógrado! Kit gay? Conservador. Há algo errado aí.  Os judeus e islâmicos teriam as mesmas posições neste assunto, mas não foram incomodados. E São Paulo tem bairros inteiros cuja população é judaica. Além da crescente população muçulmana. No que tange aos evangélicos, não há motivo para admiração, a questão é que não somos tão queridos assim, ao contrário do que pensam alguns bobinhos. O que há é uma convivência fracamente pactuada, mediada pelo crescimento do poder aquisitivo, da influência, etc. Quando eles querem, mandam às favas todas as igrejas. E nos calam com a negação dos espaços. Os políticos aproveitam a simbiose, depois correm para os templos a usar os púlpitos. Com a nossa conivência. Há quem goste de apanhar, há quem cresça o olho na vantagem. Tancredo Neves dizia que quando a esperteza é grande come o dono.

Segundo, o jogo político rasteiro não pode ser bancado pela Igreja. Disse isto numa reunião ministerial, mas poucos entenderam. Comecemos pelos partidos. Há os de esquerda, de direita e de centro. Apenas no nome. Há os que estão à direita ou à esquerda das benesses. Só isso. Inúmeras cidades brasileiras tiveram eleições conjugadas entre partidos de todos os naipes. A própria esquerda se divide aos sabor da oportunidade e da conveniência. E nós no meio do tiroteio, fazendo as vezes de gandula. Sabe como é, pega a bola e joga para os experts fazerem os gols. Há até um ou outro irmão que se enturma, mas a bem da verdade já capitulou. Manteve somente a fachada. Termos como covardia, revanche, hipocrisia, mentira, traição não combinam com a igreja bíblica, ainda que se encaixe perfeitamente na igreja real. Ainda assim, esse jogo é muito pesado para não deixar sequelas nas mãos de quem o tente bancar. O mais ingênuo no jogo político conserta um relógio, no escuro, mergulhado numa piscina olímpica! Há os deslumbrados que pensam o contrário, mas ninguém é poupado quando precisa.

Teríamos a opção de criar um partido evangélico (algo já sugerido pela CGADB e colocado em prática pela IURD), mas a história mostra que essas iniciativas só são versões das mesmas práticas. No final das contas, tais partidos se rendem ao sistema político, incutindo os mesmos nefastos valores. Precisamos entender que tudo na política gira em torno de dinheiro e poder. Simples assim. Por eles se sacrifica reputações, biografias, projetos e tudo o mais. E não ousam em ser autofágicos. Se este jogo bizarro nos parece lícito... Boa parte dos políticos que temos venderia a própria mãe, por que não uma igreja?

Terceiro, a figura do pastor que se aproveita do jogo político para a promoção pessoal ou de alguém de sua família, no melhor estilo capo italiano, tem cada vez mais espaço na cena evangélica. Uns diriam que é uma vantagem competitiva, que o autor está pensando no futuro, que saiu na frente da concorrência. Do ponto de vista egocêntrico é uma ótima ideia. Mas a igreja não pode ficar à mercê de caprichos pessoais. É interessante observar como os atores mudam até mesmo o linguajar dos pastores. Termos como massificar nomes, cristalizar opiniões, indicar um catalisador, trazem em si aquele exclusivismo déspota que estamos acostumados a ouvir falar.

É repugnante que alguém, por exemplo, não seja claro o suficiente sobre o que quer ao apoiar ou lançar um candidato. Quando obriga a que uma igreja vote naquele obscuro projeto, a coisa toma ares de ditadura. Falou-se, por citar São Paulo, que Haddad seria um poste de Lula. Quantos postes não foram lançados pelos pastores? Sem planos, sem propostas, sem projetos, sem vida própria, mas com o apoio, sabe-se lá por que, do nível superior da hierarquia religiosa. Mas a coisa vira bagunça mesmo é quando os contrários são punidos. Não é um quadro raro de encontrar nos ministérios Brasil afora. Tenho informações de vários irmãos em todo País, que estão vivenciando isto em suas congregações. Em muitas tal comportamento anemizou a relacionamento entre a liderança e os liderados. Certamente não é o que Deus deseja. Mas muitos preferem que as amizades sangrem. O culto de doutrina é utilizado para espinafrar a rebeldia.

Um capítulo à parte é a ausência de propostas práticas para o bem de todos os brasileiros. Vereadores e deputados evangélicos tem se mostrado apáticos às verdadeiras necessidades de nosso povo. Somente demandas morais mobilizam nossos nobres. Aqui e acolá um aceno inócuo como o Dia da Consciência Evangélica, que em alguns lugares é ou será em 31/10. Ora, ora, se muitas igrejas sequer falam da data... É coisa pra inglês ver. É uma pena que essa situação se perdure, por tanto tempo. Sobrevivendo como rescaldo de nossa atuação clientelista, adesista e fisiológica.

Um comentário:

Mario Sérgio disse...

Triste realidade a nossa. Quando houve a mobilização dos evangélicos em 1986 para a Assembleia Nacional Constituinte, a maioria dos nossos "representantes" se apresentaram como o "novo", o "ético". Porém as coisas descambaram mesmo para a mais explícita politicalha.