sábado, 24 de janeiro de 2015

O que acontece à Igreja?


Nunca fomos bons para dar respostas às dificuldades do mundo. Lembro de um filme que assisti cuja trama versava sobre um homem preso injustamente. Sua esposa buscava consolo e o capelão lhe dizia: Aguarde, a justiça vai prevalecer, etc. Um dia, cansada de esperar, ela se dirigiu ao mesmo e disse: Teólogos esperam. E agiu por conta própria, libertando seu marido e punindo os agressores. Guardadas as devidas proporções, somos predominantemente reativos.

Os últimos dias tem sido terríveis para a Igreja. As drogas se alastram. A prostituição campeia na sociedade em que vivemos. O crime ganha proporções épicas. O pecado asfixia a santidade. As injustiças sociais se agravam. Alguns fortes caem. As pessoas fogem dos templos e/ou abandonam seus postos. E o que fazemos? Apenas constatamos nossa incapacidade. Um amigo meu fez uma pesquisa para seu mestrado e ficou estupefato. Mais de metade dos grandes traficantes dos presídios pernambucanos são filhos de crentes. Boa parte deles filhos de componentes e dirigentes do Círculo de Oração!

Sei como é fácil dar de ombros, mas também observo como nossa trajetória nos trouxe até aqui. Éramos humildes, é fato. Mas crescemos e endurecemos nossa cerviz, como ocorreu a Israel. Enquanto nos preocupamos, por exemplo, com os eventos enquanto urgência imediata para a demarcação de nossa atuação institucional, nossa necessidade de quebrantamento aumenta. Padecemos institucionalmente de um mal crônico: a auto-suficiência.

Dos mais altos escalões (Oh! Senhor, como é difícil ter a humildade de compreender isto?) aos congregados mais recentes achamos que podemos resolver as coisas ao nosso modo. Excluímos Deus de nossas urgências porque o que primeiro Ele cobrará é o reconhecimento de sua soberania. Ele reclama por nosso retorno ao primeiro amor.

Boa parte dos crentes que conheço ponderam: É a volta de Jesus! Evidentemente é uma das possibilidades. Mas será só isso? Sei que é fácil dizer também: Assim é a vontade de Deus. Isso elimina completamente nossa responsabilidade. E é, aliás, o refúgio daqueles que fogem da culpa, dos covardes. Quantos pecadores aos quais pregamos nos dizem: Quando eu morrer Deus faça de mim o que quiser? Auto-isenção total! A Bíblia diz que devemos lançar sobre o Senhor nossa ansiedade, não nossa responsabilidade.

Uma das grandes armas de Jesus para se diferenciar dos demais líderes de sua época foi sua empatia com as dores daqueles que o cercavam. Os rabinos estudavam e se aprofundavam na Tanach, mas pouco faziam pelos problemas cotidianos. À Igreja Primitiva se juntou tal empatia com a operação de milagres. Em nossos dias a empatia desapareceu e os milagres sumiram. Temos grandes e preciosos templos, prata e ouro, mas já não podemos dizer: Levanta-te e anda, como bem refletiu Tomás de Aquino. Conheço profundos teólogos que não movem uma pá na Obra do Senhor. Ordenam, dirigem, mas nada prático fazem diretamente.

Mas há duas variáveis críticas nesta equação: 1) Vamos tomando nosso lugar na vala comum da indiferença; 2) Não reconhecemos nossa dificuldade de lidar com a questão. Ora, o primeiro passo para a cura de uma doença é o reconhecimento do seu diagnóstico. As pessoas estão empoderadas do ponto de vista humano? Por que nós líderes não nos desempoderamos a nós mesmos para lhes dar o exemplo de humildade? As pessoas estão inchadas? Por que nossos gestos contribuem para o inchaço? Não há solução neste impasse.

Das coisas mais simples às mais complexas precisamos muito mais do que teorias e proibições. Há um vento de doutrina? Desvelemo-nos na pregação e estudo da Palavra? Ouvi Norman Geisler recomendar na Consciência Cristã/2013, a dez mil pessoas, que lessem e meditassem na Palavra como recurso contra a apostasia. Ele dizia: Perguntei aos técnicos do FED (Banco Central americano) o que faziam para descobrir as fraudes. Eles responderam: Nos aperfeiçoamos na cédula verdadeira!

Nós, assembleianos, passamos tanto tempo preocupados com o invólucro que esquecemos o conteúdo. Restou do frasco bem pouco perfume. Faltou-nos estudo da Palavra, em muitos lugares os cultos de doutrina são apenas desfile de costumes. Em nossas EBDs não há aprendizado adequado para as crianças (e em muitos casos nem instalações para isso). Nossos jovens foram mimados com cantilenas e abobrinhas. Agora que as grandes redes interligam gente de todo lugar vai ficando difícil elucidar as lacunas. Como poderemos resolver o problema se os líderes não leem a Bíblia e não a estudam? Oração é um bicho papão, jejum, caviar! Paciência! Não dá pra oferecer uma resposta eficiente andando em círculos.

A Igreja não tem solução para os problemas do mundo porque não estamos fazendo nossa lição de casa. Deus não se engana com metas, propósitos, projetos, estratégias, articulações, formalidades, salamaleques. A menos que Ele veja algo prático acontecer. No mais é somente faça o que eu digo e não faça o que eu faço. Assim nada muda. O que mais me dói é perceber que podemos fazer algo, mas, simplesmente, não queremos. Somos atrapalhados por nós mesmos porque queremos preservar nosso status quo.

É mais ou menos como o Brasil. País formado de pessoas inteligentes, capazes e capacitadas, povo trabalhador e honesto em sua maioria. Mas que fica correndo atrás de frivolidades e não atua nas necessidades estruturais. Pior, não reconhece as tais. Preferindo o engodo, a ignorância e a fraude. Quer crescer, mas não sabe pra onde. Não usa a energia que tem para a solução dos problemas. Dá lugar e espaço a fanfarrões e conversadores. Um amigo historiador cravou: A Assembleia de Deus mais parece o PMDB. Grande, influente e cheio de caciques, sem projeto nacional, mas sempre presente em todos os governos. Não é um bom retrato, mas é a cara da Igreja.

5 comentários:

Miguel Arcanjo disse...

Lendo o artigo lembrei de Eli, estava inclinado aos próprios interesse, na sua própria mesa. E isto é o que acontecendo em muitas igrejas, principalmente na nossa. Os líderes em sua maioria só se preocupam com o seu próprio conforto, para muitos o ministério só quer dizer comida na mesa, segurança. Não se preocupam mais pelo rebanho.
Por enquanto, tudo continua como antes!

Miguel Arcanjo disse...

Lendo o artigo lembrei de Eli, estava inclinado aos própios interesse, na sua própria mesa. E isto é o que acontecendo em muitas igrejas, principalmente na nossa. Os líderes em sua maioria só se preocupam com o seu própio conforto, para muitos o ministério só quer dizer comida na mesa, segurança. Não se perocupam mais pelo rebanho.
Por enquanto, tudo continua como antes!

Marcos Serafim disse...

Nobre Pastor;

Graça e Paz!
Excelente texto abordado por sua pessoa, nossa liderança (em muitos lugares) estão despreocupados com tudo isso pois estão em lugares confortáveis , o bastão é passado de pai para filho, e por ai vai!
Então para que se preocupar,a bajulação corre solta, expressar o que pensa é considerado pecado de rebelião, e julgado como tal e sinceramente coloca como chamam na geladeira.
Oremos pois ao Senhor da seara que avive-nos.

Marcos Serafim Silva

Daladier Lima disse...

Prezado Miguel, de fato é crítica a ausência de humildade por parte dos líderes. Oremos para que o Senhor nos dê quebrantamento.

Daladier Lima disse...

Prezado Pr. Marcos Serafim, conheço pessoas de Norte a Sul do País que estão ansiosas por mudanças. Não mudanças cosméticas, mas profundas em nossa denominação. A CGADB dá de ombros, os pastores dão de ombros. Deus se apressa em resolver a questão.